Mais um recomeço
Alexa, toque recomeçar de Tim Bernardes (ou Next Semester, de Twenty One Pilots)
28/02/2026
Neste mesmo caderno, há exatos um mês, contei sobre meu primeiro dia de trabalho em um relato que misturava minha vida e o exercício de observação que fiz no dia. Fui feliz nesses 30 dias transcorridos, sinto que estava me adaptando a empresa, usando meus conhecimentos jornalísticos, do marketing e colocando minha criatividade para rodar com minha câmera.
Mas sabe quem não sentia isso? Meu chefe.
Acontece que, num mundo onde o dinheiro fala mais alto que o talento, pouco importa seu talento e fácil adaptação nos locais. O que importa é o que uma agência de São Paulo (lembrando, uma cidade que nem mar tem) sabe sobre um mercado que dialoga diretamente com litoral e verão.
A classe de empresários do Ceará (não sei se é um sintoma nacional) prefere ouvir qualquer zé doidinho de São Paulo do que a equipe de marketing que está sentada na sala ao lado, há um grito de distância.
A sala, inclusive, merece um parágrafo a parte, parecia pertencer a alguma dinastia de muriçocas. Nunca fui tão picado na minha vida como nesse último mês. Acho que meu sangue serviu de alimento para três famílias desses bichos horríveis que voam e acabam com seu dia. Talvez tenha sido vingança das muriçocas também, afinal, eu passava parte do meu dia matando-as.
Meus métodos de assassinar muriçocas variavam entre as palmas, na tentativa muitas vezes errônea, de matar uma delas. Eu até brincava, – mostrando que tenho bom humor – dizendo que “aqui na sala é um show, você só ouve os aplausos”. Ou eu usava o equivalente a cadeira elétrica para elas: a raquete elétrica.
Enfim, a sua voz, como profissional não é ouvida nem respeitada pelo gestor, e isso é horrível. Uma pena que o melhor amigo dele é o Grok. Não teve um ser humano, um amigo de carne e osso para sinalizar como gerir melhor a empresa.
O processo de demissão foi similar a outro que passei há cerca de dois anos.
Mal me sentei na cadeira e as palavras: “estamos desligando você” atingem seu peito como se fossem um canhão. A famosa conversa de feedback (quando deixamos tantos termos estadunidenses em nosso vocabulário?) se tornou um monólogo. Como que eu defendo meu trabalho e integridade quando tudo já está finalizado?
Sem falar o quão desumanizante é o termo “desligar”. Eu sou o que? Um robozinho sem utilidade alguma?
Respirei fundo
Muitas e muitas vezes
Chorei com minha gestora (e amiga!)
Me recompus no banheiro
Peguei minha marmita
Me despedi de pessoas maravilhosas que conheci nesse mês
Pedi meu uber
Saí de cabeça erguida
(e chorando ainda)
Sabe o que fiz quando cheguei em casa?
Guardei a comida, brinquei com o cachorro. Tirei toda a roupa, a calça horrorosa, e me vi diante do espelho apenas com minha cueca.
Liguei minha caixinha e coloquei CRANK IT, da Slayyytyer, no último volume. Fiz minha própria festinha de despedida, dancei, pulei errado e meu pé direito dói até agora.
A vida é como uma boate e temos que lutar pelo nosso direito de dançar na pista.
Eu espero que, um dia os empresários dessa cidade percebam que o talento está na sala ao lado, no bairro, na periferia. Os diversos talentos e pessoas dispostas a crescer junto com a empresa estão na mesma cidade, e não a sei lá quantos quilômetros numa selva de pedra, numa sala sem janelas e a beira de um burnout. Existe talento onde se procura um.
É isso.
***
More Than We Imagined - Filme-concerto do Twenty One Pilots
É mais do imaginávamos, mesmo.
4.5/5 ⭐⭐⭐⭐
No mesmo dia que aconteceu esse desligamento, Arthur me disse algo do tipo “a vida tem dessas, ao mesmo tempo que acontece uma coisa que a gente quer e gosta, acontece a maior merda também”. E o dia inteiro foi essa mistura estranha.
Eu fui assistir ao filme concerto da banda Twenty One Pilots com ele e Mariana, minha amiga de muitos anos (em breve sairá texto sobre ela). Eu combinei o rolê inteiro, ato que amo. Mariana e eu ficamos fã da dupla no mesmo tempo, ali depois da pandemia com o lançamento do disco Scaled and Icy.
Fomos no IMAX e a experiência foi arrebatadora.
Eu e Mariana não temos vergonha, gostamos de fazer “mungango” juntos. Pensei “será que vão cantar junto com o filme?” Eu sou o primeiro a reclamar de uso de celulares e quem fica falando o filme inteiro, mas ali era um ambiente cheio de fãs para um filme que era a gravação do show no México. Era o cenário para se cantar.
Começamos tímidos, cantando baixo. Arthur, que só conhecia Heathens, ficava olhando no Spotify qual era a música que estava sendo tocada. Felizmente, ele gostou da maioria.
Quando chegou na terceira música, todos estavam cantando. Ufa, vamos expurgar nossos demônios juntos, gritando a cada letra.
Foi inevitável não comparar minha experiência com o show em São Paulo (mais detalhes no texto abaixo) e com a do filme. Em SP, vivenciei minha primeira viagem sozinho e a solidão que isso traz. Acabei curtindo o show sozinho, aproveitando os três lugares vazios dos meus lados.
No cinema, éramos todos estranhos com o propósito de aproveitar o filme. A solidão ali não me atingiu de forma alguma.
Comparei também o quanto eu mudei em um ano. Apesar das surras que a vida nos dá, a gente pode olhar a escuridão, mas não se deixar intimidada por ela. ““Death inspires me like a dog inspires a rabbit”. Tyler, eu entendi!
Voltando ao filme, ele é muito bem construído. Mescla o show com momentos de bastidores, formato já conhecido no mercado pop. Uma pena que cortaram Vignette e The Craving. The Judge, que contava com videos de fãs cantando na fila no dia do show, por exemplo, também foi outra que foi cortada por conta do tempo de filme.
Em compensação, The Line, canção feita para a série Arcane, fez sua primeira vez cantada ao vivo em turnê. Foi emocionante ver a canção sendo performada em toda sua potência.
A dupla conseguiu se manter relevante após dez anos contando a história começada no disco Blurryface, em 2015. Meu medo era ela sofrer um processo de “coldplayzação”, que consiste em lançar qualquer coisa sem alma com intenção de hitar nas rádios.
isso não acontece com o duo, que cresce cada vez mais em cada disco, mostrando novas vertentes do rock e suas derivações pop e eletrônica.
Por fim, é um ótimo filme-concerto, que recomendo para todo mundo. Acredito que em breve esteja no streaming (e quem sabe a versão completa?). Resta esperar.
xx





que venham coisas melhores pra você! boa sorte <3